Outro dia me peguei sendo uma escrota

Sabe essas pessoas que chamam de sinceridade o que é, na verdade, grosseria? Pois é, eu tava fazendo isso. Sendo intolerante com os erros e anotando cada um deles. Calculando todas as atitudes que podiam ser mal interpretadas, apontando as metas prometidas que não foram alcançadas, exigindo perfeição a todo tempo.

E quando olhei pra essa pessoa que eu tava espezinhando, adivinha? Era eu mesma.

Poxa, eu tento não ser ruim com ninguém. Ser compreensiva. Entender. Não acho justo exigir do outro o que está só na nossa cabeça – e a gente não pediu com todas as letras. Mas quando chega em mim mesma, sou uma pessoa horrível.

Fico me botando pra baixo. Abro o armário e vejo aquele monte de roupa me cobrando uma dieta. Os sapatos de salto ficam ali à espreita da hora que vou tomar jeito e me arrumar de verdade. Nossa, são tantos livros que esperam eu ser mais bem informada, cada job que já entra lamentando a minha baixa produtividade e por aí vai.

A próxima meta diária, o compromisso inadiável que resolvi ter agora é o de ser gente boa.  Não só com os outros, mas comigo mesma. Se ser gente boa com as pessoas facilita as coisas, estou achando que comigo mesma não vai ser diferente. E você, que tipo de pessoa tem sido consigo mesma?

Arte da incrível Nazareth Pacheco.

Por que as pessoas sempre agem assim com você

Na homeopatia, cada pessoa tem um medicamento próprio; e o seu remédio é feito daquilo que daria, numa pessoa saudável, o sintoma que você tem*. Isso porque, às vezes, provar um pouquinho do veneno é o que faz a gente melhorar. E a diferença entre o remédio e o veneno, sabemos, é a dose.

Muitas vezes você tem bode das pessoas. Por que me tratam assim? Por que não me ouvem? Por que me dizem as coisas que eu mais odeio ouvir? Ora, bem, vou te dizer uma dura verdade: elas só fazem isso porque você deixa.

Você senta lá na cadeirinha da dócil, que aceita tudo, ou da impulsiva, que não sabe o que quer, ou qualquer outro rótulo que você se acostumou a ter. E abre espaço para as pessoas fazerem isso com você. Você toma o venenão todos os dias, por conta própria; e quando ele aparece vindo de uma outra pessoa, o gosto já é seu velho conhecido.

Quando alguém vem e, despretensiosamente, te dá um pouquinho daquele veneno, a carapuça serve. Você conhece a dança. E resolve colocar toda a culpa na outra pessoa. Ela é como as outras. Mas quem vestiu a máscara – desculpe – foi você. É porque você se coloca assim, sabe interagir dentro desse mecanismo. Você se trata assim, é o personagem que sabe interpretar. E a outra pessoa só está deixando isso ainda mais claro para você. Pode ser essa dosinha que você precisava para dizer: chega.

Se você não tomar suas doses diárias de autodepreciação, esquecer essa ideia que formou de você mesma, uma gotinha de veneno aleatória não vai fazer nem cócegas. Você não vai entrar mais uma vez nesse compasso, nesse papel insuportável que costuma adotar em todas as suas relações.

Mas, para isso, é preciso que você ocupe seu espaço. Tire a venda, não deixe para os outros decidirem até onde eles vão com você. Defina isso antes, escolha o remédio que te faz bem. Ensaie a dança que você quer dançar, e não aquela que você detesta. O outro só começa onde você termina.

*Esse é o simmilimum, princípio que eu aprendi com meu médico Paulo Rosembaun no livro Homeopatia – Medicina sob medida.

Imagem: 8 de espadas do Tarot de Waite.