Outro dia me peguei sendo uma escrota

Sabe essas pessoas que chamam de sinceridade o que é, na verdade, grosseria? Pois é, eu tava fazendo isso. Sendo intolerante com os erros e anotando cada um deles. Calculando todas as atitudes que podiam ser mal interpretadas, apontando as metas prometidas que não foram alcançadas, exigindo perfeição a todo tempo.

E quando olhei pra essa pessoa que eu tava espezinhando, adivinha? Era eu mesma.

Poxa, eu tento não ser ruim com ninguém. Ser compreensiva. Entender. Não acho justo exigir do outro o que está só na nossa cabeça – e a gente não pediu com todas as letras. Mas quando chega em mim mesma, sou uma pessoa horrível.

Fico me botando pra baixo. Abro o armário e vejo aquele monte de roupa me cobrando uma dieta. Os sapatos de salto ficam ali à espreita da hora que vou tomar jeito e me arrumar de verdade. Nossa, são tantos livros que esperam eu ser mais bem informada, cada job que já entra lamentando a minha baixa produtividade e por aí vai.

A próxima meta diária, o compromisso inadiável que resolvi ter agora é o de ser gente boa.  Não só com os outros, mas comigo mesma. Se ser gente boa com as pessoas facilita as coisas, estou achando que comigo mesma não vai ser diferente. E você, que tipo de pessoa tem sido consigo mesma?

Arte da incrível Nazareth Pacheco.

Women in the Mirror, do fotógrafo Richard Avedon

Richard Avedon foi um grande nome da fotografia internacional, especializado em retrato e moda. Passeando por um belíssimo livro que reúne fotografias suas tiradas entre 1945 e 2004, ano de sua morte, encontrei várias imagens que me tocaram. Woman in the Mirror traz retratos de mulheres de muitas profissões, anônimas e celebridades, jovens e mais velhas, ao longo dos últimos 50 anos do século passado. Guardei alguns na memória – certamente dos famosos, porque o livro é uma riqueza só e eu pude apenas dar uma olhada breve.

Destaques para o ana suromai da modelo Stephanie Saymour, poderoso e impactante, bem como o brilhante registro de um olhar perdido da Marilyn Monroe. Compartilho com vocês:

Os nus de Émilie Charmy

Conheci o trabalho de Émilie Charmy em um curso muito interessante sobre arte e gênero, que estou fazendo lá no Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Ministrado pela professora Ana Paula Simioni,  a aula traz uma abordagem crítica da história da arte, a partir da discussão proposta por autoras feministas. Mais do que um projeto de retomar mulheres artistas, a ideia é propor um novo olhar para as instituições que envolvem a arte, buscando entender os lugares nela ocupados por mulheres e homens.

Émilie Charmy foi uma pintora francesa que viveu de 1878 a 1974, tendo uma forte aproximação com o movimento fauvista do início do século XX. Nesse momento, certos temas – como o nu feminino e a prostituição – começavam a ser mais factíveis para a arte produzida por mulheres que, mesmo  na vanguarda, enfrentavam o peso das expectativas sociais do gênero em sua produção. Embora a militância artística ainda fosse uma escolha ousada para elas, são perceptíveis as marcas diferenciais da experiência do gênero na obra de umas e outros.

O que me encantou na obra de Émilie, que conheci em uma aula da professora Ana Paula,  foram os olhos e a expressão de suas personagens. Especialmente, a complexidade da relação que parecem estabelecer com seus próprios corpos. Com um erotismo presente, mas distante da exacerbação que usualmente traz o olhar voyeur masculino tão recorrente nas pinturas do período, Émilie Charmy apresenta uma delicadeza viva, inteira, exuberante. E, ao mesmo tempo, autorreferenciada. A sugestão das formas, mais que a precisão do desenho, contribui para a noção subjetiva do corpo, mais próxima das personagens retratadas do que de nós. Deleitem-se:

Ps: Tive bastante dificuldade em encontrar as obras, e mais ainda seus respectivos nomes e datas. Quem puder contribuir com informações, será muito bem vindx!