5 dicas para não achar que está grávida todo mês

Miga, PARE COM A NOIA.

O medo da gravidez assombra as mulheres mais que o derretimento das calotas polares. Isso porque não é fácil ser mãe na nossa sociedade – muito menos de surpresa -, mas também porque a gente permanece levando a nossa vida sexual com menos responsabilidade e consciência do que poderia. Então, todo mês bate aquela culpa e você fica desesperada quando está chegando a hora de menstruar. Aqui vão as minhas dicas para dar um basta nessa noia mensal e viver seu ciclo com mais tranquilidade.

 

  1. Não corra riscos. Conheça seu método contraceptivo – e use direito SEMPRE.

Existe uma diversidade enorme de métodos contraceptivos, com taxas altíssimas de eficácia. Mas, para ser eficaz, você tem que fazer parte do grupo que faz o uso perfeito do método. Ou seja: no caso da pílula, tome todos os dias no mesmo horário e fique atenta a outros medicamentos que podem interferir na sua eficácia. Se você usa camisinha, coloque desde o início do contato sexual, e tire imediatamente depois da ejaculação. Para evitar neuras, teste depois a camisinha, apertando e até enchendo de água para ver que ela segurou tudinho lá dentro. Pesquise, conheça e confie no seu método. Ah, e usar mais de um ao mesmo tempo multiplica a eficácia deles, garantindo um soninho sem de bebê para você.

 

  1. Aprenda a observar o seu ciclo, ouça o seu corpo – e RELAXE!

Os sinais iniciais da gravidez são muito parecidos com os da TPM, então, não ache que seus peitos estão inchados de leite, que você está com enjoo, etc etc. Se você não toma pílula, pode observar pelo método sintotermal qual é a fase do ciclo em que você está e triplicar os cuidados quando estiver fértil. Para ter uma ideia, a cada ciclo você só pode efetivamente ficar grávida se transar em apenas alguns dias específicos, com no máximo 30% de chances de engravidar se transar sem contracepção quando está fértil. Então miga, PARE: não é tão fácil assim ficar grávida, e se você conhece seu ciclo, sabe dizer se realmente tem motivo para se preocupar.

 

  1. Não desespere e NÃO CONSULTE O DR. GOOGLE.

Você já está informada sobre os princípios básicos da concepção – e da contracepção. Por isso, agora que você provavelmente está na TPM (e muito mais sensível e com tendências a dramatizar a vida*), não vá ao Dr. Google. Porque certamente ele vai te dizer que é gravidez – ou câncer – o que não ajuda em nada em amenizar o desespero. Especialmente, não deixe para descobrir o sangramento de nidação neste momento.

 

  1. ESQUEÇA o sangramento de nidação.

A nidação é o processo em que o embrião se acopla ao endométrio para poder se desenvolver. Isso acontece uns 12 dias depois da fecundação, por isso, muitas mulheres que estão grávidas observam um pequeno sangramento mais ou menos na época de menstruar, mas não é menstruação.

Agora que você sabe disso, ESQUEÇA. Se você usou seu(s) método(s) contraceptivo(s) direitinho, não se arriscou no período fértil, e apareceu um sanguinho mequetrefe que ainda não é fluxo menstrual, RELAXA. Muitas mulheres (incluindo eu) recebem um teaser de menstruação alguns dias antes do fluxo, ele para, e só depois ela chega de vez. Considere isso um sinal que a menstruação está chegando, e fique longe da paranoia.

 

  1. Converse com seu parceiro ou uma amiga.

Pessoas de confiança podem ajudar você a pensar com calma e avaliar se, de fato, existe um risco de gravidez. Escolha alguém que você considera sensato e divida a angústia. Talvez você – mais uma vez – esteja dando voz àquela insegurança de sempre, e isso acaba propiciando os atrasos menstruais. Se, mesmo depois de avaliar calmamente os riscos, achar que pode estar grávida, faça um teste de farmácia e até um de sangue. Para que perder o sono? Tá na dúvida, descobre logo e segue a vida.

 

 

Em último caso, você tem escolha.

Por fim, precisamos falar sobre o aborto. Essa prática é crime no Brasil, mas não é a proibição que faz as mulheres pararem de ter autonomia sobre suas vidas. Informe-se, procure opções e aconselhamento o mais seguro possível. Pessoas de confiança da área da saúde e da luta por direitos reprodutivos podem te orientar, como o Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, em São Paulo. Já as organizações internacionais Women on Waves e Women Help Women orientam e enviam medicamentos abortivos para mulheres em países onde o aborto é proibido. Muito importante: busque ajuda, proteja-se e não se exponha na internet ou por telefone. E mais importante de tudo: não esteja sozinha, não tome decisões precipitadas e não se culpe. Mais de 2 mil mulheres abortam todos os dias no Brasil, e esse é um assunto de saúde pública que o nosso país se recusa a tratar com seriedade.

*Cada mulher vive seu ciclo de um jeito, e estou falando a partir da minha experiência e conhecimento pessoal. Se você não vive a TPM assim, peço desculpas pela generalização, ok?

 

Leia mais:

Cartilha Fique Amiga Dela

O que as mulheres devem saber sobre Fertilidade

Nidação ou menstruação: saiba quais são as diferenças

Como funciona o aborto no Brasil e no mundo

‘Aborto já é livre no Brasil. Proibir é punir quem não tem dinheiro’, diz Drauzio Varella

O mito das relações que terminam bem

Todo encerramento é um baque. Quer dizer: ninguém começa uma relação esperando que um dia ela vá terminar. Ninguém planta uma rosa projetando o dia em que ela irá murchar.

Agora, me surpreendem as narrativas da aceitação, as narrativas da celebração do que foi e a resiliência sobre não ser mais.

Ora, nenhum empreendimento termina sem frustração. O término pode ser um alívio; a despedida pode por fim ao sofrimento; mas o olhar sobre o passado consegue ser tão desprendido assim?

Conseguiremos lembrar de nossos mortos sem saudade? Falar de nossos ex sem resquícios de ressentimentos?

Quando o distanciamento será legítimo para um discurso totalmente desinteressado? Uma interpretação madura dos fatos, que reconhece suas benesses e superou suas perdas?

Nada garante que as pétalas que murcharam no meu coração apodrecem da mesma cor que as suas. Regar uma rosa seca na gaveta não a traz de volta ao jardim.

Quando ainda há tempo, para reavivar uma flor se deve tratar todas as pragas que a enfraquecem, adubar a terra, dar-lhe a atenção que faltou.

Agora, transformá-la em um belíssimo arranjo post mortem é um ato vaidade, e não de amor.

A perfeição é uma farsa

Amal Alamuddin é uma advogada poderosa. Fala três idiomas, é conselheira do ex-secretário-geral da ONU e estava acompanhando o marido, uma das maiores estrelas de Hollywood. Em Cannes, encantadoramente vestida, NÃO CONSEGUIU SUBIR A P____ DE UMA ESCADA.
Amal Alamuddin é uma advogada poderosa. Fala três idiomas, é conselheira do ex-secretário-geral da ONU e estava acompanhando o marido, uma das maiores estrelas de Hollywood, em Cannes. Encantadoramente vestida, não conseguiu subir uma escada sozinha.
Ser perfeita nunca foi uma ideia que me agradou muito. Talvez porque eu nunca tenha sido muito “boa” nisso, ou provavelmente porque a contraparte obrigatória dessa ideia é um fracasso escandaloso. Mesmo quando você acerta.
Explico: nós mulheres somos confrontadas com ideais etéreos, e a nós são atribuídas tarefas hercúleas de auto-transmutação constante.
É como se a perfeição estivesse sempre a um passo mais, um investimento maior, uma dedicação um pouco mais disciplinada. Porque simplesmente “ser” não é permitido.
E então vamos nós, seguindo planos mirabolantes de dietas, cronogramas de estética rigorosos e regras precisas de comportamento nos relacionamentos. Fazendo jogos, planejando movimentos e posturas. Para não sermos arrogantes, para não sermos mal interpretadas, para podermos sair ao sol no verão. E mesmo assim, falhamos.
Porque sempre tem um doce que nos chama, ou porque o salto quebra. Porque fica batom no dente. Porque o alisamento não se mantém na umidade. O salto agulha não dá firmeza na passada. A roupa é tão justa que pode rasgar a qualquer momento. Porque sua calcinha não pode jamais aparecer, e pior ainda se ela for do tamanho errado. E os seus peitos, eles sempre serão do tamanho errado.
Essa expectativa difusa nos acompanha das entrevistas de emprego à nossa cama. Subimos em saltos de tortura, maquiamos a identidade na nossa pele, forjamos comportamentos que não expressam nossas emoções. Buscamos encontrar o espaço muito tênue entre a submissa e a louca, a mal-comida e a biscate, a monstra fitness e a largada. Será que existe mesmo esse lugar de ~normalidade~ em que seríamos deixadas em paz?
Não, esse lugar não existe. Porque vivemos em um sistema que alimenta nossas inseguranças. Adquirimos soluções para problemas inventados, e eles estarão sempre a mais uma compra de distância. O emprego dos sonhos está um curso mais perto. O corpo ideal é questão de  uma cirurgia mais. A nossa paz interior, em uma pílula cada manhã.
Por outro lado, vivemos relações que, muitas vezes, pressupõem essa insegurança. Seu chefe vai aceitar você ser mais competente do que ele? Tudo bem para seu marido dividir as tarefas, ou pior, receber menos que você?
Lembremo-nos que o defeito não somos nós. O defeito é construído. Qual performance poderia ser tão bem executada a ponto de perfeita? Nenhuma. Qual truque temos que fazer para que o mundo nos deixe, simplesmente, ser? Aquele de olhar para si mesma e dizer: eu sou a melhor versão de mim mesma. E isso me torna o máximo.
Chega de cumprir, frustradas, papéis toscamente interpretados de perfeição. Chega de ser apenas um rascunho de nós mesmas. Você não é uma farsa, você é carne, osso, pele e espírito. Não deixe ninguém passar por cima disso.

Sangue Bom: livre para menstruar

Pare de odiar sua menstruação e dê o próximo passo da sua liberdade

Continuando o assunto dos últimos posts, vamos ver como podemos viver nossa menstruação com mais tranquilidade.

3. Repense o anticoncepcional

A pílula (e todos os contraceptivos hormonais, como anel, implante e adesivo) suspende seu ciclo de variação hormonal natural e introduz hormônios artificiais em doses estáveis ao longo do mês, melhorando alguns sintomas percebidos no ciclo natural. Mas, se a manutenção de um nível estável de hormônios artificiais acaba com os “vales” do nosso ciclo, também impede os “picos”. Ou seja: ficam inibidos os momentos de “fragilidade”, mas também aqueles de “poder” e autoconfiança promovidos pelas variações naturais do nosso corpo.

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E os benefícios da pílula para os sintomas do período pré-menstrual e menstrual muitas vezes nem são tão vantajosos assim. Se diminui as cólicas, muitas mulheres relatam uma instabilidade emocional maior com a pílula, e até mesmo depressão. Se reduz as espinhas, a baixa na testosterona dificulta o fortalecimento muscular e dá menos vigor físico – a famosa fadiga. Sei que é difícil encara essa possibilidade, mas tomar esse remédio diariamente pode estar, na verdade, prejudicando o seu bem-estar.

(Falando nisso: você já tentou parar com a pílula?)

Talvez optar pela camisinha, o diafragma ou o DIU de cobre como contraceptivo não seja tão ruim assim. E descobrir novas formas de encarar as cólicas, a irritabilidade, as espinhas e outros sintomas do ciclo é uma tarefa desafiadora, mas não impossível. O que nos leva ao próximo ponto.

4. Observe-se, conheça-se, respeite-se

Como já falei antes aqui, a medicina tradicional e a indústria farmacêutica são baseadas numa separação muito clara entre os detentores do conhecimento sobre o corpo e as donas desses corpos – ou seja, nós. Isso faz com que seja difícil nos sentirmos seguras sobre nossos próprios ciclos e nossa saúde, porque sempre tem alguém que sabe mais para interferir nas nossas decisões. E decidir por nós, dentro de um cenário totalmente paternalista da relação médico-paciente. Para reverter isso, não tem jeito: é preciso se informar e se observar, desconstruindo a ideia de que somos “maquininhas com defeito”.

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Para as mulheres que nunca tomaram pílula ou começaram apenas na idade adulta, foi possível aprender a perceber que as flutuações hormonais ao longo do ciclo impactam e muito a nossa percepção do mundo. Para quem começou desde cedo com ela, e não teve oportunidade de se adaptar ao próprio ciclo, pode ser estranho pensar em aproveitar as características de cada fase. Mas pode ter certeza: fazer isso ao invés de repreender seu corpo pode ser extremamente vantajoso.

Por exemplo: nos momentos de maior introspecção, como pode ser o período menstrual, podemos tentar nos preservar de possíveis conflitos, evitando embates e discussões. Por outro lado, muitas mulheres sentem a autoconfiança lá em cima perto da ovulação – e ficam mais seguras de si, cheias de energia para encarar disputas e tarefas mais desafiadoras. Pode parecer papo de horóscopo, e veja só: não estou dizendo que somos limitadas aos nossos hormônios. Mas, assim como os alimentos que comemos, o ambiente em que vivemos e os relacionamentos em que estamos fazem diferença sobre o nosso bem-estar, também acontece com as variações hormonais naturais pelas quais passamos. Caminhar pela manhã quando ainda está fresco é muito mais fácil do que ao meio-dia; consertar o telhado fica mais simples quando não está chovendo.

Observar-se e identificar seu estado físico e emocional é o primeiro passo para avaliar o quanto você vai se permitir envolver/desgastar em cada questão. Cada mulher tem seu próprio padrão de variações, então só você vai poder descobrir como usar cada fase do seu ciclo para maximizar seu bem-estar – e respeitar seu corpo.

5. Junte azamiga

Para facilitar todo esse processo de autoconhecimento – e empoderamento, nada melhor do que boa companhia. Em um mundo onde é proibido menstruar (ou ter orgulho disso), trocar informações, experiências e apoio é realmente transformador.

Quantas vezes não usamos o tabu a nosso favor? Justamente por ser um segredo, é nesse espaço de privacidade que encontramos empatia uma com as outras. Emprestar um absorvente ou uma roupa, indicar um chazinho ou um remédio para cólicas. Lembrar sua amiga num dia difícil que ela só está “de TPM”, menos tolerante com as dificuldades do mundo e isso é completamente normal, pode ajudar a acalmar as coisas. Às vezes, precisamos de um colo, ou um pouco de descanso do mundo. Perceber esse momento e encontrar uma brechinha para si mesma em sua própria vida pode ser uma verdadeira revolução.

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Leia também:

Mitos e Fatos Sobre a Menstruação, O Lado Oculto da Lua; A Mulher no Corpo – Uma análise cultural da reprodução, de Emily Martin; Women beware, Dr. Joseph Mercola; Tudo sobre a doença que pode ser causada pelo absorvente interno, M de Mulher; Choque Tóxico: Por Que Esta Mulher Está Processando um Fabricante de Absorvente Interno Depois de Perder a Perna, Vice; Tira Dúvidas: Coletores Menstruais, Blogueiras Feministas; Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Pinkola Estes; Sweetening The Pill, 2013; The Pill: Are you sure it’s for you?

Sangue Bom: a revolução menstrual

Pare de rejeitar sua menstruação e dê o próximo passo da sua liberdade

No último post, falei sobre as diversas maneiras pelas quais nossa sociedade rejeita a menstruação. Seja no trabalho, nas rodas de amigos, na publicidade ou nos milhares de produtos e medicamentos feitos para “remediar” o “problema”, parece que só temos coisas ruins para falar desse acontecimento mensal na vida das mulheres.

Mas afinal, menstruamos e temos que lidar com isso. Diante desse cenário, como viver melhor a sua menstruação? Aqui vão algumas dicas.

  1. Aceite

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 Chega de nojinho. Menstruar é um acontecimento que todas as pessoas nascidas mulheres compartilham, salvo raras exceções. Ela não é suja, não é errada e faz parte da sua saúde – já que o fato de ela não vir geralmente é o que indica uma alteração. Em diversas sociedades tradicionais, é, inclusive, considerada um acontecimento sagrado e símbolo da força de criação feminina. E muitas mulheres a consideram o primeiro passo para a vida adulta, com uma carga simbólica muito poderosa. Ouça mais o seu íntimo, e menos o consenso social sobre a menstruação. Afinal, quem ganha com a ideia de que algo natural do seu corpo é sujo, falho, repugnante?

  1. Largue os absorventes

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Uma das principais causas da rejeição à menstruação está ligada ao péssimo desempenho dos absorventes descartáveis em nos ajudar nesse período. Além de caros, estes produtos “anti-odor” são desconfortáveis e muitas vezes cheiram mal quando usados, porque permitem que o sangue menstrual entre em contato com o oxigênio.

Eles abafam a região genital, dando uma sensação de calor e umidade, além de promoverem o ambiente perfeito para a proliferação de micro-organismos. Isso pode alterar o pH vaginal, propiciando o surgimento de infecções – e com elas, mais mau cheiro, corrimentos etc.  Sem falar no risco da terrível síndrome do choque tóxico.

Para perceber a diferença de menstruar sem usar absorventes descartáveis, você pode começar deixando a calcinha sujar um pouco (sem neura!) ou não usar nada (saia, shortinho largo) quando o fluxo estiver menor num dia de descanso, ou durante a noite. Vamos lá: uma eventual mancha sai com água morna; e esta pode ser uma maneira simples de ver como os absorventes são, de fato, muito desconfortáveis – e não a menstruação em si.

Para os dias de maior fluxo, opte pelos absorventes de pano ou pelo queridinho coletor. Aliás, o famoso copinho mereceria um blog só para ele, já que é um dos principais instrumentos para a autodescoberta das mulheres nos últimos tempos. Ele é ecologicamente correto, confortável, pode ser usado por até 12h seguidas, não causa reações alérgicas e o melhor: permite que você tenha um contato transformador com sua menstruação, tendo familiaridade com sua textura, quantidade e cheiro (não é fedida!!!).

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Ah, e muitas mulheres (incluindo eu) notam uma diminuição dos dias do fluxo e das cólicas com o coletor. A explicação ˜conspiratória~ seria pelo abandono dos absorventes descartáveis – que possuem em sua composição elementos tóxicos acusados de interferir no ciclo e nos fazer sangrar por mais dias. Mas o fato de o copinho fazer um vácuo que “suga” a menstruação já parece suficiente para abreviar a duração do fluxo.

[ Continue lendo ]

Sangue bom: o tabu da menstruação

Pare de rejeitar sua menstruação e dê o próximo passo da sua liberdade

A menstruação é um grande tabu contemporâneo. Relegada a reclamações sobre cólicas, disfarçada em pedidos constrangidos de absorventes emprestados e considerada um mero sinal da não-gravidez, sobre a menstruação temos uma realidade:

Só pode falar se for para falar mal

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É só observarmos as palavras associadas a ela: todas muito degradantes e que fazem um panorama do imaginário social a respeito.

[Regras]       [Monstra]       [Chico]       [Visita]       [Incômodo]       [Aqueles dias]       [Cheiro de peixe]       [Dita cuja]

Quem nunca ouviu um “ew” ao falar sobre isso no colégio, ou se sentiu constrangida ao precisar pedir um absorvente emprestado?

Outro exemplo é a obsessão da indústria farmacêutica – e, por consequência, dos médicos formados na sua sombra – por patologizar o ciclo menstrual. Um dos mais alardeados ~benefícios~ dos anticoncepcionais hormonais é, justamente, o controle/a diminuição do fluxo menstrual, e até mesmo sua suspensão. Uma doença que pode ser remediada. Um fardo para o qual existem infinitos produtos específicos “anti-odor”, para você estar “sempre protegida”, “sempre seca”, etc.

Aliás, não se iluda: o sangramento da pausa do anticoncepcional não é menstruação. Ele se chama de sangramento de privação, e mantê-lo foi uma escolha deliberada da indústria para dar uma sensação de naturalidade ao uso do medicamento.

O que essa realidade ignora é que a menstruação é, de fato, um dos principais sinais de saúde do corpo feminino. E os problemas relacionados a ela são, na verdade, sinais de que o corpo está em desequilíbrio – importantíssimos na hora de avaliarmos nossa relação com o mundo: saúde, relacionamentos, trabalho, e até conosco mesmas. Com a supressão desses sintomas, já não identificamos os desequilíbrios – e os mascaramos.

De fato, pode ser muito difícil ter que lidar com os sintomas do período pré-menstrual e menstrual, ainda mais porque não temos o menor incentivo para isso. Além da má fama social, no trabalho e na escola/faculdade a menstruação também não é tratada com naturalidade. Intervalos e espaços de descompressão são raridade; saídas recorrentes para o banheiro são mal vistas; e nós mesmas nos cobramos por não estar 100% empenhadas nas questões exteriores.

Tudo isso porque, no sistema capitalista, exige-se das pessoas estarem sempre produtivas, como máquinas; e no caso das mulheres, também belas e disponíveis.

Por isso mesmo, a TPM e a menstruação acabam vistas como um período de descontrole; ou ainda uma “frescura”, uma “desculpa” para trabalhar menos. Uma “fraqueza” tipicamente feminina.

O fato é que menstruamos e temos que lidar com isso. Diante desse cenário, como viver melhor a sua menstruação? É possível se libertar de verdade desse “fardo”?

 

[continue lendo]

 

É preciso falar

 

Na rede, nos blogs, nas ruas. Mas também no tête-à-tête, na hora que acontece e com quem acontece.

Uma vez, eu estava esperando um ônibus para casa, já passava das 8 da noite, quando ouvi um homem gritando muito. Ele dizia insultos horríveis, como: você é burra, você faz tudo errado, eu só passo vergonha com você. Fui me aproximando, preocupada, com medo, com revolta. Era um homem alto, grande, gritando com uma mulher que carregava várias sacolas – todas as coisas dela. Eu fui chegando perto, não sei com que coragem, meio atordoada pela situação. Ele, percebendo minha aproximação, esbravejava que ela deveria ir embora logo com ele. A mulher permanecia imóvel.

Aterrorizada, mas firme, consegui balbuciar para a mulher: “Você não precisa ir. Não vai, não”. O homem, furioso, aumentou as ameaças mas não veio para cima de mim. Dizia que estava passando vergonha na rua por causa dela. Que iria reclamar com a mãe dela, e que ela ficasse esperta também com sua menina, porque isso não iria passar em branco. Ela se mantinha atônita, não se movia. Até que, como por um milagre, ele desistiu. Ela disse que não ia. Eu fiquei. Ele foi embora.

Devo ter dado sorte. Devo ter o santo forte, ou a lua estava na posição certa naquele momento. O que eu sei é que falei, e me mantive ali, ao lado dela. E isso foi importante para Elaine, com quem fiquei por mais uma hora depois, e que soluçava, grata, porque conseguiu enxergar em mim uma aliada, e teve coragem para não ir mais para casa com ele.

Na noite anterior, ela tinha sonhado com uma mulher em sua cama. E achava que era eu. Naquela noite, ela encontrou em mim a coragem que procurava em si mesma.

Ficar ao lado dela foi uma das experiências mais malucas que já passei. Eu poderia ter sido agredida. Ela poderia ter sido agredida. Talvez ela rejeitasse minha ajuda. E ele poderia voltar a qualquer momento. Mas não aconteceu assim.

Falar, sempre que pudermos, é importante. Em público, nas redes, nas ruas. Mas no dia a dia também. Na hora em que um homem interrompe a fala de nossa colega, na hora que vemos uma desconhecida ser assediada no metrô. A violência nos cerca, mas precisamos lembrar que não estamos sozinhas. E manter-nos ao lado de nós mesmas.

Se você não viu:

O machismo disfarçado naquela piadinha do Whatsapp

Redação do Enem 2015 ‘plantou uma semente’, diz Maria da Penha

Em campanha no Twitter, mulheres relatam primeiros casos de assédio que sofreram

Você já tentou parar com a pílula? – parte 2

Pode parecer surreal, mas estamos viciadas numa droga: a pílula anticoncepcional

Continuação desse texto. 

Mas, se a pílula não é o melhor contraceptivo, porque esse consumo obsessivo?

Já faz um bom tempo que a indústria farmacêutica sabe que o fator contraceptivo não é o grande diferencial da pílula. Isso porque, como vimos no último post, são diversos os métodos contraceptivos existentes – e a eficácia deles é muito similar. Para o seu próprio bem, a indústria escolheu focar nos chamados efeitos secundários da pílula para transformá-la em um medicamento de uso “obrigatório” para a mulher moderna.

A pílula anticoncepcional passou, então, a fazer parte dos chamados “medicamentos de bem-estar” (Lifestyle Drugs), drogas voltadas a questões que não ameaçam a vida ou trazem dor, mas que apresentam efeitos “desejáveis” ao usuário – e são legalmente prescritas e vendidas. Como qualquer outro produto, a chave do sucesso destes medicamentos é despertar a necessidade deles.

Provocar a sensação de ausência ou de deficiência do corpo, portanto, é fundamental para o mercado dessas drogas.

No caso da pílula, patologizam-se os efeitos das variações hormonais naturais do ciclo menstrual. Ou seja: a pílula é o remédio que vai corrigir o irregular, doente e incompleto corpo da mulher. Ser mulher é um pesadelo que precisa de tratamento.

As indicações da pílula vão, portanto, muito além da contracepção. Ela é a solução do problema de ser mulher: inchaço, acne, variações de humor, cólicas, a terrível síndrome dos ovários policísticos*, e mesmo a menstruação, são os sintomas a ser combatidos.

Claro que os sintomas são reais e impactam a vida de boa parte das mulheres. Mas, ao amenizar esses sintomas, a pílula não está tratando os problemas em sua origem: ela os mascara. A suspensão do ciclo hormonal natural causada por esse medicamento realmente melhora os sintomas dos desequilíbrios hormonais, mas não trata a causa dos problemas – tanto que eles reaparecem, com mais força, quanto paramos de tomar pílula. E isso pode ter consequências graves – para mulheres com SOP, por exemplo, significa uma enorme barreira para a gravidez. Para as outras, a dependência de um medicamento que traz riscos à saúde.

A introdução dos hormônios sintéticos bloqueia a função ovariana e impede a ovulação. Com isso, suspendem-se os sintomas mas também as funções dos hormônios naturais, que vão muito além da fertilidade em si.

Estima-se que a pílula intervém em mais de 100 funções do corpo feminino.

Entre os riscos mais famosos da pílula, estão os cardiovasculares, que incluem trombose, embolia pulmonar, AVC e ataque cardíaco; além do câncer de mama, de fígado, cervical, entre outros. Mas também existem outros efeitos colaterais, menos falados, que permeiam as discussões entre amigas e os consultórios médicos, e estão presentes na vida de quem toma pílula – e muitas vezes nem suspeita dela.

O uso da pílula antes dos 20 anos dobra o risco de câncer de mama.

Depressão, baixa ou nenhuma libido, dor de cabeça, tontura, alterações de humor, náusea, dor nas mamas, fadiga, dificuldade em desenvolver músculos. Deficiências nutricionais. A lista de impactos é enorme e a resposta dos nossos médicos costuma ser a mesma: troque a pílula. Mas, como falamos, a fórmula dos contraceptivos hormonais tem a mesma base**, e a origem dos problemas está justamente nos hormônios sintéticos, que são usados também no anel vaginal, no DIU hormonal, no adesivo e na injeção.

As mulheres que usam contracepção hormonal têm 2x mais depressão.

Um dos principais motivos para o abandono da contracepção hormonal é seu impacto sobre a saúde emocional – discussão que incide sobre a nossa autoconfiança, e por vezes passa como frescura para os que estão à nossa volta. Começando com 14 ou 15 anos, será que aos 25 ou 30 podemos imaginar como seríamos sem a pílula?

A questão é: não precisamos ser dependentes da pílula! Já passou da hora de parar de tomar esse remédio como se fosse água.

Não sou médica e minha intenção aqui é alertar para esse consumo impensado, a ideia da pílula-para-todos-os-problemas. Nenhum medicamento serve para todas, e nossa fertilidade não é uma doença. Há várias maneiras de lidar com os picos e vales dos hormônios com mais naturalidade, aceitação e protagonismo. É preciso conhecer outros métodos contraceptivos e terapias alternativas, aprender a ouvir nosso corpo e entendê-lo, afastando a ideia de ele está em descontrole. Essa pode ser uma experiência transformadora… Mas isso é assunto para outros posts!

 

P.S.: O objetivo desse texto é informar e questionar, nunca julgar a livre escolha de contracepção. Todo mundo tem direito de escolher o método contraceptivo (e de tratamento) que preferir.

 

Para saber mais:

1 How the Pill Became a Lifestyle Drug. American Journal of Public Health, 2015 2 Sweetening The Pill, 2013 3 The Pill Problem, 2013 4 Manual de Orientação Anticoncepção FEBRASGO, 2010 4 Planejamento familiar: um manual global para profissionais e serviços de saúde 5 The Pill: Are you sure it’s for you?, 2008

Para decidir de verdade: Take Back Birth Control

Começou essa semana uma campanha muito bacana do Telegraph Wonder Woman, o portal de jornalismo feminino do jornal britânico The Telegraph. “Take Back Birth Control” – algo como “Tome de Volta a Contracepção” – é uma campanha para levantar o debate sobre contracepção, em um cenário em que a pílula se tornou o método mais aceito, recomendado e prescrito na Grã Bretanha.

A campanha procura questionar o quanto a decisão pela pílula é realmente consciente e segura no país.

Entre os 15 métodos contraceptivos disponíveis, 3,5 milhões de mulheres britânicas hoje tomam pílula, muitas vezes sem serem apresentadas aos outros métodos ou passar por triagem médica aprofundada. Além disso, aparecem os componentes emocionais dessa escolha, que envolvem a falta de tempo dos médicos em considerar as questões apresentadas pelas pacientes, a negociação com o parceiro e o modo com que as reclamações sobre a pílula são recebidas pela sociedade.

Em uma pesquisa promovida pelo portal, mais de um terço (35%) das usuárias concordaram que “se espera que as mulheres tolerem os efeitos colaterais da contracepção hormonal”.

Mais de um quarto (27%) diz não saber o que a contracepção hormonal faz ao seu corpo, e o mesmo percentual (27%) afirmou se sentir preocupada e apreensiva com isso. Números importantes demais para serem ignorados.

Entre os efeitos colaterais emocionais relatados estão depressão, mudanças bruscas de humor, irritação, fadiga e baixa libido.

Todos esses encarados com desconfiança pela classe médica e pela indústria farmacêutica, devido à escassez de estudos a respeito. Estudos, geralmente, bancados pelos fabricantes do medicamento! Os efeitos físicos, como ganho de peso e trombose, também entram no pacote.

Clique aqui para conhecer a campanha. Você pode participar usando a hashtag #TakeBackBirthControl e compartilhando conhecimento!     Referências One year in: Building an online women’s section ‘from scratch’ at the Telegraph Telegraph Wonder Women launches Take Back Birth Control campaign

Você já tentou parar com a pílula? – parte 1

Pode parecer surreal, mas estamos viciadas numa droga: a pílula anticoncepcional

Os médicos torcem o nariz, as amigas entram em choque e os familiares – esses nem podem ficar sabendo. A decisão de abandonar a pílula é considerada uma ideia absurda, um desleixo, mesmo quando motivada por efeitos colaterais incômodos, riscos à saúde e a procura de um método contraceptivo menos invasivo. A postura dos parceiros também costuma ser um entrave – com a recusa da camisinha ou de métodos que exigem sua participação. Além da pressão social, ainda aparecem os efeitos da abstinência – que são muito pouco difundidos – e, no fim das contas, muitas mulheres desistem. Mas se você for conversar com aquela sua tia ou amiga mais natureba, vai descobrir que ela nunca tomou nem quis tomar esse medicamento. E não saiu tendo filho a torto e a direito, nem arriscando a saúde sem saber. Por que, afinal, estamos viciadas na pílula?

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É, de fato, um fenômeno geracional. Enquanto a mulher da chamada “geração pílula” conheceu esse método apenas no início de sua vida conjugal, hoje a pílula já é prescrita de maneira preventiva, desde a primeira consulta ao ginecologista. Enquanto as escolarizadas dispõem de mais opções, quase 80% das mulheres de menor nível educacional já começam tomando pílula. Ela corresponde ao principal método contraceptivo temporário utilizado atualmente no Brasil, com um índice de 38% de uso entre as mulheres que se previnem – mais do que todos os outros métodos temporários somados (32%). Para ter uma ideia, só 18% das brasileiras usam camisinha!

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A indústria farmacêutica é a principal interessada nesse quase-monopólio. A pílula é o produto farmacêutico perfeito: um remédio feito para ser tomado diariamente, sem a necessidade de doença, durante boa parte da vida de uma parcela enorme da população. No Brasil, o número é de quase 27 milhões de potenciais consumidoras – um mercado impressionante. Para ver como a indústria está confortável com a sua situação: a fórmula básica da pílula nunca mudou – ela foi introduzida nos anos 60. Mesmo as demais tecnologias de contracepção hormonal (implante, adesivo) foram desenvolvidas lá nos anos 1960 e 1970. Há mais de meio século, o consumo desse medicamento “como água” garante o lucro da indústria.

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Mas será que a pílula é mesmo tão superior aos outros métodos?

A infabilidade da pílula, na verdade, é uma ilusão: todo método contraceptivo tem um índice de falha. E o da pílula não é nem o menor: seu índice de segurança (91%) é intermediário entre o diafragma (88%) e o DIU (99%). Além disso, o mais usual e recomendado é a combinação de 2 ou mais métodos para multiplicar a eficácia contraceptiva, assim como a sensação de proteção. Afinal, se a gente confiasse tanto assim na pílula anticoncepcional, não tomaria pílula do dia seguinte nem faria teste de gravidez com tanta frequência. Segundo um estudo da USP, a maior parte dos jovens recorre à contracepção de emergência por insegurança. Que método ideal é esse, que nos deixa tão inseguras?

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Veja uma tabela com uma conta simples de probabilidade, com a pílula e alguns métodos contraceptivos não hormonais. Os valores variam pouco entre alguns métodos isolados e combinações. Somente o DIU, que depende de um procedimento cirúrgico para implantar, tem sozinho taxa de eficácia de 99%.

 

tabela

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Atenção 1: Fertilidade consciente não é tabelinha, é um conjunto de métodos também conhecidos como sintotérmicos, baseados na identificação da fertilidade por sintomas como temperatura basal, muco e textura da cérvice (Fertility Awareness Methods – FAM).
Atenção 2: Coito interrompido é um método considerado inseguro especialmente se utilizado sozinho – mas não falar dele é ignorar a realidade.
Atenção 3: Só a camisinha protege contra as DST. Escolher não usar camisinha é um comportamento de risco.

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Por outro lado, o uso da pílula já como prevenção da gravidez acaba por estimular o abandono do preservativo entre os jovens. Isso porque enxergamos a proteção em dois níveis: primeiro contra gravidez, depois contra DST. Assim, uma vez que a mulher toma o anticoncepcional e a relação é considerada “de confiança”, assume-se que a camisinha pode ser abandonada – e sem ela entram todos os riscos do sexo inseguro.

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Outra diferença da pílula para alguns desses métodos não hormonais – como os 2 tipos de camisinha, o coito interrompido e a fertilidade consciente – é que eles exigem a participação do parceiro na contracepção. Isso incide diretamente sobre o modo com que vivemos nossas relações. É muito comum a recusa do homem em usar camisinha, pelas mais variadas desculpas, mas que colocam em risco a saúde especialmente da mulher. Alegando não sentir prazer, acusando a parceira de não confiar nele, ou dizendo simplesmente que “não serve”, muitos homens rejeitam as várias opções de preservativo e colocam toda a responsabilidade – e o risco – na mulher. Isso sem falar de todos os efeitos colaterais da contracepção hormonal, que tratarei mais para frente.

 

Mas, se a pílula não é o melhor contraceptivo, porque esse consumo obsessivo?

Essa pergunta eu deixo para responder na segunda parte desse post, já que esta ficou enorme. Por enquanto, ficam algumas indicações de leitura.

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Referências

1 A experiência com contraceptivos no Brasil: uma questão de geração. UFSC, 2012 2 Pesquisa Nacional de Saúde da Criança e da Mulher. Ministério da Saúde, 2006How the Pill Became a Lifestyle Drug. American Journal of Public Health, 2015 4 Bedsider 5 Estudo aponta que uso da pílula do dia seguinte é alto entre jovens. D24am, 2013 6 Uso de contracepção de emergência e camisinha entre adolescentes e jovens. Revista SOGIA-BR, 2005 7 Sweetening The Pill, 2013 8 The Pill: Are you sure it’s for you?