4 motivos pra fugir do papo merda

Você entra no elevador e “nossa, e esse calor!”, e quando chega ao trabalho, “falta muito pra sexta?”. Na hora do almoço, “preciso voltar pra dieta”. No uber, “político é tudo igual” e, trocando ideia no bar, “só no Brasil acontece esse tipo de coisa”. Esse é um repúdio ao papo merda, e eu vou explicar nas próximas linhas por quê ele deve ser o inimigo número um da sua vida diária.

    1. É sempre a mesma merda.
      O papo merda não te acrescenta em nada. Observe um pouco e verá: são repetições dos mesmos argumentos clichês, sem fundamento, que não crescem a conversa nem você, e não mudam de ano a ano.
    2. Não te deixa mais próximo de ninguém.
      O que aproxima as pessoas é o ponto de vista. O tipo de humor, a posição política, o jeito como se pensa. O papo merda te diz pouco sobre o outro. Porque todo mundo acaba falando sempre a mesma coisa.
    3. Não quebra o gelo, só enxuga. 
      O papo merda não quebra o gelo. Ele só deixa claro que ali existe um grande silêncio que as pessoas estão desesperadamente tentando preencher. Relaxa, cara. Já está estranho o silêncio assim, o papo merda só vai deixar a situação ainda mais estranha.
    4. Tira o foco do que importa.
      A gente já vive bombardeado de informação. O celular não para de apitar, o trabalho vem todo de uma vez, os boletos e os problemas chegam juntos. Se você quer ser uma pessoa melhor, não há tempo a perder com papo merda.

Por isso, faça o exercício de ficar em silêncio. Respira, você não precisa estar sempre dizendo algo. Isso vai te trazer mais foco para o que você realmente tem que fazer. E quando for conversar, troque de verdade com as pessoas que te cercam. Fale o que pense, escute, se permita ir a fundo nos assuntos. O tempo é a coisa mais valiosa que você tem (inclusive, é por isso que te pagam por ele). Não desperdice com papo merda.

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Outro dia me peguei sendo uma escrota

Sabe essas pessoas que chamam de sinceridade o que é, na verdade, grosseria? Pois é, eu tava fazendo isso. Sendo intolerante com os erros e anotando cada um deles. Calculando todas as atitudes que podiam ser mal interpretadas, apontando as metas prometidas que não foram alcançadas, exigindo perfeição a todo tempo.

E quando olhei pra essa pessoa que eu tava espezinhando, adivinha? Era eu mesma.

Poxa, eu tento não ser ruim com ninguém. Ser compreensiva. Entender. Não acho justo exigir do outro o que está só na nossa cabeça – e a gente não pediu com todas as letras. Mas quando chega em mim mesma, sou uma pessoa horrível.

Fico me botando pra baixo. Abro o armário e vejo aquele monte de roupa me cobrando uma dieta. Os sapatos de salto ficam ali à espreita da hora que vou tomar jeito e me arrumar de verdade. Nossa, são tantos livros que esperam eu ser mais bem informada, cada job que já entra lamentando a minha baixa produtividade e por aí vai.

A próxima meta diária, o compromisso inadiável que resolvi ter agora é o de ser gente boa.  Não só com os outros, mas comigo mesma. Se ser gente boa com as pessoas facilita as coisas, estou achando que comigo mesma não vai ser diferente. E você, que tipo de pessoa tem sido consigo mesma?

Arte da incrível Nazareth Pacheco.

Chega de Fiu Fiu e a força que existe em nós

A campanha Chega de Fiu Fiu contra o assédio nas ruas, criada pela ONG feminista Think Olga, virou filme. O documentário estreou ontem e tive o prazer de assistir em primeira mão. Não darei nenhum spoiler, mas falarei um pouco sobre as impressões que o filme causou em mim.

1. O assédio é interseccional, o feminismo tem que ser também

 

No documentário, acompanhamos as histórias de três mulheres muito diferentes: Rosa Luz, Raquel Carvalho e Teresa Chaves. Uma vive em Gama, cidade próxima a Brasília, outra em Salvador e a terceira em São Paulo, capital. Duas negras, uma branca. Duas magras, uma gorda. Duas pobres, uma rica. Duas cis, uma trans. Ao longo do filme, elas nos contam sobre os assobios, os toques, os olhares e as palavras que cruzam seus caminhos diários, por mais diferentes que possam ser. E se gente não entende que não existe feminismo sem incluir todas as três na luta – e tantas quantas formos -, nossa pauta estará incompleta.

2. Os homens são parte do problema – e da solução

Sabemos que são os homens os privilegiados na nossa sociedade patriarcal e machista. Eles são perpetradores do assédio – e, se é importante empoderar as vítimas, é fundamental desconstruir a masculinidade que legitima e incentiva esse tipo de comportamento. No filme, vemos um grupo de homens discutindo o que pensam sobre assédio, o que pode ser um pouco irritante. Imagina um bando de brancos falando o que pensam sobre racismo, se é ok ser racista de vez em quando? Pois é. Mas é neste espaço que ocorre a tomada de consciência e alguns deles começam a entender o problema. Não que a responsabilidade de educar deva ser das mulheres – esse é assunto para outro post – mas o problema precisa ser combatido em sua origem. E a origem é a masculinidade da forma como é construída hoje.

3. Assédio e agressão física têm a mesma origem

Enquanto as pessoas costumam questionar a validade das denúncias de assédio, mesmo quando há provas, a violência física geralmente é mais levada a sério, como em espancamentos e estupros. O que acaba passando batido é que as premissas contidas no assédio e na violência física de gênero são as mesmas: controle do corpo da mulher, domínio masculino sobre o espaço (necessidade de “marcar território” ou mostrar quem manda aqui) e uso da violência (física ou não) para demonstrar estes dois últimos. Assim, seja com um espancamento ou um assobio, a necessidade de colocar a mulher num patamar inferior – objetificando, expondo, fragilizando ou humilhando, é a mesma.

4. Nós somos nossa principal arma

Por fim, como a Jules Faria, fundadora da Olga, respondeu quando perguntada sobre o que mudou desde o início da campanha Chega de Fiu Fiu: não muito. O assédio continua grande. Juízes continuam descreditando as vítimas, a mídia relativiza a violência e as leis são as mesmas. Mas a discussão ficou mais madura. E ela – a Jules – e eu – a Rebeca – e a Rosa e a Raquel e a Teresa e tantas outras sabemos quantas de nós passamos pelas mesmas coisas. Sabemos que a culpa não é nossa. Sabemos que andar nas ruas é, sim, direito nosso. E que não importa a roupa que usamos, porque no fundo não é sobre nós individualmente. É sobre nós enquanto mulheres. E juntas, somos muitas. E muitas, somos fortes. E isso muda tudo.

Assista o trailer:

Ficha técnica:

Título: Chega de Fiu Fiu Direção: Amanda Kamanchek/Fernanda Frazão Ano: 2018 Duração: 73 minutos País: Brasil Falado em português Disponível também com legenda em inglês Classificação indicativa: 14 anos Som 5.1 Documentário Colorido 2048×858 Aspecto 2.39:1 Direção : Amanda Kamanchek e Fernanda Frazão Produção Executiva : Juliana Lemes e Lucas Kakuda Direção de Fotografia : Lucas Kakuda Direção de Produção e Ass. de Direção : Camila Biau Montagem: Cibele Appes Com: Rosa Luz, Raquel Carvalho e Teresa Chaves Convidadas especialistas: Djamila Ribeiro, Juliana de Faria, Luana Hansen, Margareth Rago, Nilceia Freire

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Regras do Clube da Dupla

A primeira regra do Clube da Dupla é: você não fala sobre o Clube da Dupla. Mas se ninguém fala, vira zona e o processo criativo toma nocaute. Então vamos lá:

1. Você não aprova ideias no Clube da Dupla;

2. Você não reprova ideias no Clube da Dupla;

3. Somente duas pessoas por dupla;

4. Uma dupla de cada vez;

5. Sem ego, sem filtro;

6. As duplas duram o tempo que for necessário;

7. Quando alguém gritar “para!”, der carteirada ou desertar, a dupla acaba;

8. Mesmo se for veterano no Clube da Dupla, você tem que ser humilde!

ENQUETE: sua boceta tem cheiro do quê?

Se tem uma coisa que me irrita é quando falam que boceta cheira mal. A piadinha é constante: “a menina fica tão perto que eu sinto cheiro de peixe”. “Que cheiro de boceta que está nesse lugar!”, “Vai comer esfiha de bacalhau?”, etc., etc. Nunca ouvi coisa parecida de mulheres, só para constar.

Os mesmos homens que falam esse tipo de coisa continuam pagando de comedores – são fãs de xoxota, desde que a mulher não possa se orgulhar dela. Sem entrar nos pormenores da misoginia, o que interessa aqui é o seguinte: amiga, já parou para sentir o cheiro da sua boceta? Porque os homens, eles falam sobre isso – e você, o que tem a dizer sobre o seu cheiro?

Sem entrar nos pormenores da misoginia, o que interessa aqui é o seguinte: amiga, já parou para sentir o cheiro da sua boceta?

Vamos lá, isso é uma enquete real e para mim foi uma maneira interessantíssima de afirmar para o mundo: a minha boceta é maravilhosa, eu amo o cheiro dela e CHEIRO DE PEIXE É O CARALHO. Ou alguma infecção, que você pode tratar e se deixar descobrir seu aroma natural e delicioso. Se o seu problema for o cheiro no absorvente, querida, experimente usar o coletor menstrual (ou nada) e depois venha me contar. <3

Para começar, com as mãos limpas e sem cheiro de sabonete (lave com algo que não deixe resíduo aromático), passe os dedos por ela, feche os olhos, sinta e tente identificar os aromas que aparecem. Sem querer gourmetizar a pepeca, vamos nos conhecer melhor? E aí, qual o buquê* da sua boceta? Responda abaixo ou comente, pode ser anônimo. :)

RESULTADO DA ENQUETE

*Buquê é a palavra usada para o conjunto de aromas que forma um perfume.

 

Leia mais:

Quem conhece o corpo da mulher?

Sangue bom: o tabu da menstruação

Cheiro de buceta

 

 

Solteira sim, sem job nunca

O povo anda com medo de se comprometer. Vejo amigos enrolados até o pescoço no mesmo script: um, dois dates. A partir do terceiro job, a coisa começa a ficar esquisita. Será que é ok mandar whatsapp a qualquer hora? Ou chamar para uma festa na firma? É, as coisas parecem que estão ficando sérias.

E aí entra o problema do briefing: ninguém fala exatamente o que quer. Se existe possibilidade de contratação, o budget real ou se é só uma concorrência. Honestidade é caso raro, mas alinhar a expectativa das entregas é essencial para dar match também na vida real. Porque mandar mene é facinho, mas na hora de trocar textão as pessoas ficam com medo de se entregar.

Claro que todo mundo ama shippar os cases de sucesso, aqueles com cara de festival. Babar nas carreiras sólidas, de estagiário a VP com fotinho oficial de casamento. Mas ninguém tá disposto a se envolver de verdade. Quando as horas vão ficando mais extras, os amigos vão sentindo sua falta e o coração palpita se toca o celular, a geração Tinder se apavora. E no perfil dos mais saidinhos eles ainda têm coragem de admitir: “não namoro, faço freela.”

Créditos da imagem: Coisas com sentimentos

O corte

Incerto como teria de ser, duro como uma rajada de vento frio, daquelas que levantam sua roupa e quase te derrubam no chão.

Ele vem quando menos se espera. Seco, implacável. Não tem essa de transição lenta, de algo que você vai farejando – aquela famosa crise no relacionamento. Não: corte é corte. Quase como descobrir uma traição: você só toma conhecimento, atônito. E geralmente é o último a saber.

O corte é quando sua história é interrompida abruptamente. Às vezes seguido de uma escalada de tensão, mas na maior parte só atravessando seu enredo sem pedir licença. É aquele plot twist que joga para o alto as suas certezas, que balança sua cabeça e te tira, por alguns segundos, a firmeza sob os pés.

É quando bate a sensação de que você não é mais protagonista – porque não tem nada que você poderia ter feito para evitá-lo. Esse grande escritor sacana resolveu riscar do set o seu nome, entre tantos outros, então não dá nem pra pensar em você como vítima exclusiva de um grande vilão. Não é pessoal. Você estava na hora errada no cenário certo, sua história não fechou nas contas, e as suas palavras foram reduzidas a um número.

Incerto como teria de ser, duro como uma rajada de vento frio, daquelas que levantam sua roupa e quase te derrubam no chão. Mas não se engane, meu amigo: essa é a função dele. O corte é o ponto alto dos melhores roteiros, e o melhor agora está por vir.